Desafios Literários para 2017

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Desafio I: 24 livros para 2017 {TBR Bottle} 


Sortearei no meu Instagram dois livros da lista por mês, um maior (G) e um menor (P), para ir balanceando e chegar ao fim de 2017 tendo lido pelo menos esses 24 livros que estão na estante há mais tempo do que deveriam. Se animou e quer fazer o mesmo? É muito simples: separe 12 livros tamanho P e 12 livros tamanho G da sua estante, coloque sua lista aqui nos comentários e vamos nessa juntos! Aqui vai a minha lista:

  1. Jurassic Park (G)
  2. 20.000 Léguas Submarinas (G)
  3. Boa Noite (P) Março √
  4. Macunaíma (P) Setembro
  5. Patrimônio (P)
  6. Grandes Esperanças (G) : Janeiro √
  7. Anexos (G) Fevereiro √
  8. O Apocalipse dos Trabalhadores (P) Abril √
  9. O Médico e o Monstro (P) Fevereiro √
  10. A Consciência de Zeno (G)
  11. O Último Adeus (G) Maio
  12. Tampa (P) Julho
  13. Asking for it (G) Julho
  14. As Vinhas da Ira (G) Março √
  15. O Quarto de Jacob (P) Maio
  16. Planeta dos Macacos (P) Agosto
  17. A Contadora de Filmes (P)
  18. Moby Dick (G) Abril √
  19. Este Lado do Paraíso (G) Junho √
  20. Pawana (P) Junho √
  21. Mil e uma Noites (G) Setembro
  22. Maya (G) Agosto
  23. Sidarta (P)
  24. O Curioso Caso de Benjamin Button (P) : Janeiro √

Clique em Leia Mais aqui embaixo para ver os outros desafios que me propuz para 2017:

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[RESENHA] A Resistência – Julián Fuks

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Meu irmão é adotado, mas não posso e não quero dizer que meu irmão é adotado. Se digo assim, se pronuncio essa frase que por muito tempo cuidei de silenciar, reduzo meu irmão a uma condição categórica, a uma atribuição essencial: meu irmão é algo, e esse algo é o que tantos tentam enxergar nele, esse algo são as marcas que insistimos em procurar, contra a vontade, em seus traços, em seus gestos, em seus atos. Meu irmão é adotado, mas não quero reforçar o estigma que a palavra evoca, o estigma que é a própria palavra convertida em caráter. Não quero aprofundar sua cicatriz e, se não quero, não posso dizer cicatriz.

Este é o primeiro parágrafo de A resistência, parágrafo este que funciona com perfeição como cartão de visitas para o romance ao deixar claro logo de início dois traços fundamentais que irão guiá-lo: a linguagem enquanto resistência e a obra como autoficção sobre a vida e a relação do autor com seu irmão.

O estilo de Fuks nos conquista logo neste parágrafo e rapidamente nos vemos enredados em uma trama memorialista em que a relação familiar se confunde com a situação política dos anos 1970 na Argentina e no Brasil. Ao mesmo tempo, a linguagem e a busca do autor diante da impossibilidade de encontrar as palavras certas ganha protagonismo e traz-nos para dentro do processo de construção da obra.

Sei que escrevo meu fracasso. Não sei bem o que escrevo. Vacilo entre um apego incompreensível à realidade – ou aos esparsos despojos de mundo que costumamos chamar de realidade – e uma inexorável disposição fabular, um truque alternativa, a vontade de forjar sentidos que a vida se recusa a dar.

É um romance que engana, pois com capítulos curtos e apenas 139 páginas poderíamos pensar que é leve e fácil, mas, embora extremamente envolvente, dá trabalho ao leitor. As relações resistem, a linguagem resiste, tudo é trabalhado e coloca o leitor em uma posição de confronto e reflexão constantes. Mas como compensa! Um incrível exemplo de como a literatura brasileira não deixa a desejar a nenhuma outra!

Foi especialmente interessante, para mim, ter a oportunidade de ouvir o autor falar sobre como foi seu processo de construção deste livro, enquanto auto-ficção, na Flip e conhecê-lo, inclusive, e logo em seguida ler o livro. Acredito que ter a oportunidade de ouvir, mesmo que brevemente, o autor falar sobre o seu processo aproxima-nos de sua obra, ainda mais no caso deste romance que fala tanto sobre si mesmo enquanto processo.

 

[RESENHA] Persépolis – Marjane

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Persépolis é uma história em quadrinhos autobiográfica, originalmente publicada em quatro volumes, em que acompanhamos a infância e juventude de Marjane Satrapi, nascida no final dos anos 60 no Irã que, aos 10 anos, acompanhou a derrubada do Xá e a construção de uma ditadura islâmica no poder do seu país.

Uma das coisas mais legais desse quadrinho é que ele acaba sendo extremamente educativo, principalmente quanto à cultura iraniana pré-ditadura islâmica. Nós, ocidentais, temos uma ideia do que é o Irã e do que é a cultura islâmica que é, em muitos pontos, equivocada e o tom didático aliado a um humor bem particular tornam esta uma leitura que realmente nos dá uma outra dimensão do que é a região da antiga Pérsia (não é à toa que Satrapi fala em Persépolis e não propriamente em Irã).

Achei impressionante também  como a autora faz questão de tornar seu desenho e seu uso do formato “quadrinho” o mais sutil possível, de forma que não é raro ouvir alguém dizer que no meio da história esqueceu que estava lendo uma HQ e começou a sentir que estava lendo mesmo um relato corrido em primeira pessoa (só no encontro do #LeiaMulheres do Rio de Janeiro foram umas cinco ou seis pessoas fazendo este tipo de afirmalção).

Um outro ponto muito interessante é que Satrapi não se furta a revelar-nos os aspectos menos louváveis deste período da sua vida. Existe um episódio, em especial, bem problemático em termos éticos, que chama a atenção. Por que fazer questão de nos contar algo tão questionável? Para nos mostrar que ela não é uma heroína. Ela não é um mártir. Ela é uma jovem mulher em uma situação complicada e que, como tal, comete erros. Marjane, a protagonista, é apenas humana. E o que ela nos mostra é exatamente isto: está tudo bem ser apenas humana. Está tudo bem errar. Está tudo bem não ser sempre a mulher forte, revolucionária e quebradora de padrões.

[RESENHA] Asking for it – Louise O’Neill

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Asking for it (Ela estava pedindo, tradução nossa) é daqueles livros cuja leitura não é para qualquer um mas que, ao mesmo tempo, e talvez justamente pelas mesmas razões, seja necessário ser lido por todos nós, todos mesmo. Abuso sexual e, mais precisamente, estupro coletivo com a vítima inconsciente, como é o caso retratado no livro, não é um tema fácil ou simples, mas é algo que acontece muito mais do que chega aos nossos ouvidos, seja aqui, no Brasil, ou no interior da Irlanda, onde a história se passa.

Emma O’Donovan, a protagonista de Asking for it, é a garota que todos os garotos querem ter e que todas as meninas queriam ser. Tem seu grupo de amigas inseparáveis (com as quais ela mantém um certo grau de rivalidade), uma família com pequenos atritos, mas, aparentemente, com amor de sobra, é popular e parece tirar boas notas sem muito esforço.

Um dia, no entanto, após uma certa festa, ela acorda na varanda da sua casa sem lembrar-se como chegou lá ou porque está sentindo tanta dor. No entanto, ela parece ser a única a não saber a resposta, pois fotos que foram tiradas ao longo da noite, durante a parte da noite que parece ter sido apagada de sua memória, mostram detalhadamente o que aconteceu com Emma. As fotos se espalham rapidamente e a impressão que temos é que Emma é a última a saber o que aconteceu com ela.

O’neill tem um escrita corajosa como poucas ousam ter e faz questão de ter uma abordagem extremamente realista da situação de Emma ao fazer a trama girar, a partir daí, em volta da presunção de culpabilidade da vítima. Isto é, há uma conclusão geral automática de que ela queria que os acontecimentos retratados nas fotos ocorressem. O primeiro reflexo de todos, ou quase todos, parece ser que se ela não tivesse se vestido desta forma ou não tivesse feito aquilo, nada disso teria acontecido. Ela estava pedindo. Era isso que ela queria. Era isso que ela merecia.

Mais do que acompanharmos a história de Emma, em Asking for it acompanhamos um fênomeno social que pode acontecer, e já aconteceu várias vezes, ao nosso lado a qualquer momento: o modo como tratamos jovens que sofrem abuso sexual como as agressoras (“ela estava pedindo”, “ela arruinou a vida deles”, “ela não se dava ao respeito”) e os abusadores como vítimas (“eles só estavam brincando”, “eles são bons meninos”, “eles só perderam o controle”, “eles não resistiram”).

She has no face. She is just a body, a life-size doll to play with.

[Ela não tem um rosto. É apenas um corpo, uma boneca em tamanho para brincar]

 

Louise O’Neill, Afterword: We need to talk about rape. We need to talk about consent. We need to talk about vitim-blaming and slut-shaming and the double standards we place upon our young men and women.

Louise O’Neill, Posfácio: [Nós precisamos falar sobre estupro. Nós precisamos falar sobre consentimento. Nós precisamos falar sobre culpabilização da vítima e slut-shamingos double standards que nos colocamos sobre nossos jovens].

ESPECIAL FLIP 2017 – Dia 3 e 4

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Depois de quinta-feira exaustiva, minha sexta e sábado foram um pouquinho mais lights, então vou apenas ressaltar o que considerei os destaques destes dias:

Sexta

A conversa com a incrível Conceição Evaristo, promovida pela Editora Malê, na programação “paralela”, foi sem dúvida o destaque do dia para mim. Não só pelas fortes e importantes palavras da escritora, mas pelo desejo de estar ali e simpatia com todos que ela demonstrou. Conceição Evaristo é uma autora que realmente já merece há bastante tempo ganhar uma importância mais ampla na nosso literatura mundial e é muito bonito ver sua obra sendo, embora ainda muito aos poucos, reconhecida de modo mais amplo.

Sábado

No sábado tivemos oportunidade de acompanhar duas mesas muito interessantes: a primeira, às 15h, com uma conversa maravilhosa entre Maria Valéria Rezende e Luaty Beirão, na qual foi possível ver o poder que o ativismo político de cada um e o quanto este ativismo perpassa suas respectivas manifestações artísticas.

Logo em seguida, às 17h15, tive o prazer de assistir a mesa “Mar de histórias”, em que Sjón e Alberto Mussa dividiram experiências, mitologias e músicas. Foi muito bonito ouvir, principalmente, Sjón, islandês com colaborações com Bjork e poucas obras publicadas em português, mas com uma narrativa tão bela e, sob muitos aspectos, tão próxima a nós.

 

 

ESPECIAL FLIP 2017 – Dia 2

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O segundo dia da Flip foi bem intenso, foram cerca de 14 horas pelas ruas do cenrro historico de Paraty. Começamos o dia com Pilar e Paloma sobre José Saramago (seu companheiro) e Jorge Amado (seu pai), com mediação da incrível Lilia Schwarcz.

 Foi lindo. Emocionou, levantou questões, divertiu. Só cresceu o carinho por estes dois autores icônicos. Observar o afeto que existia entre os dois continuar marcando suas famílias é tocante.

Seguindo a programação imperdível do dia, teve a mesa na programação principal com três autoras contemporâneas incríveis: Carol Rodrigues, Djaimilia Pereira de Almeida e Natália Borges Polesso, esta última autora do livro que estou lendo no momento, “Amora”, e amando.

Em seguida tivemos a mesa “Fuks et Fux”, onde os dois autores falaram sobre seus processos de auto-ficção. Confesso que o estilo de Jacques Fux não me mobilizou muito, mas segui muito interessada em conhecer mais a obra de Julián Fuks.

Encerrando a noite, tivemos a esperada mesa “Em nome da mãe”, com Noemi Jaffe e Scholastique Mukasonga. Foi muito bonito ouvir um pouco da história familiar, da guerra e de como as duas autoras trabalharam estes temas em suas obras.

ESPECIAL FLIP 2017 – Dia 1

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O primeiro dia da Flip é sempre mais de expectativas, pois a Festa mesmo só ocorre na parte da noite neste dia. Mas já tive minha primeira surpresa positiva e minha primeira decepção.

A livraria da Travessa, como sempre, montou um grande stand, mas, ao contrário de outros anos, temos um total de 0 descontos. Está saindo, na verdade, mais barato comprar pelo site da livraria do que aqui.

Enquanto isso, a casa da Folha trouxe uma grata surpresa: várias das coleções de livros, CDs e DVDs estão aqui e com um preço ótimo! E, para os amantes de café, ainda esta rolando cortesia de Café Mellita.

E as mesas de discussão começaram com os dois pés direitos: Lilia Schwarcz e Lázaro Ramos fizeram uma performance emocionante, nos apresentado a um Lima Barreto à frente do seu tempo, irônico, embranquecido pela sua sociedade como forma de aceitá-lo e completamente contemporâneo. Foi ainda melhor do que qualquer um poderia esperar!

[RESENHA] Livro dos Começos – Noemi Jaffe

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Vamos começar a semana da Flip falando de um livro INCRÍVEL brasileiro e contemporâneo, cuja autora estará presente da feira? Foi assim que descobri o Livro dos Começos: pesquisando as obras dos autores que estarão na Flip (na qual estaremos e contaremos aqui diariamente como está sendo). E tive uma grande surpresa quando passeia tê-lo em mãos.

Livro dos começos é composto de 19 começos que, em vez de serem organizados no formato tradicional de livro, nos são apresentados em folhas individuais e não-numeradas, permitindo a radical mobilidade do texto. É mais correto pensarmos nesta obra como uma coletânea de micro contos que buscam diferentes interpretações do que poderia consistir ou não em um começo do que como um Romance. Os começos, no entanto, são uma mistura de ficção e não-ficção, tornando-os, talvez, micro ensaios em vez de micro contos.

Diante na impossibilidade de classificá-los em um determinado gênero, em detrimento dos outros, somos forçados, logo de cara, a tomar uma atitude: seremos coniventes com a organização original, que poderia muito bem já ser aleatória, ou criaremos uma nova forma de ler a obra? Eu escolhi a segunda opção e fiz o bom e velho sorteio para determinar uma nova ordem de leitura e, tendo sido a primeira obra que li em ordem determinada pela sorte, confesso que me encantei pela experiência proposta por Jaffe.

foto 5 passos

A escrita de Noemi Jaffe é muito gostosa e seu tom ensaístico não fica parecendo pedante ou acadêmico em momento algum. Na verdade, ler este livro foi como sentar para conversar sobre o tema com um amigo. Ou melhor, com dezenove amigos diferentes que tem a dizer e, principalmente, que dizem coisas que nos fazem pensar sobre escrita, sobre viver, sobre ação e reação, entre muitas outras coisas. Deixo vocês agora com alguns trechos dos meus começos preferidos:

Começar é fácil. Antes que a pessoa se dê conta, antes que decida, o começo já se impõe. É só mexer o braço, piscar, deslocar um pé mais para a direita ou para a esquerda e já é um começo. Nada definitivo ou grandiloquente é necessário. Mesmo que tenha havido muito esforço de planejamento, muito tempo no desenvolvimento do projeto, nada disso dificulta ou impede o começo.

O começo é um suicídio. É preciso arriscar-se e jogar para morrer. É preciso morrer de verdade. Abandonar o que se sabe, o que se conhece, o que se quer. Não se pode saber o que se quer. Entregar-se ao vazio e habitá-lo sem paredes, teto ou chão.

Será que, escolhendo um caminho que surge como chance de começo, não se perdem outros melhores? Ou será que qualquer caminho serve, contanto que se comece e, mais tarde, quando já se tiver começado, conserta-se o que estiver errado?

 

Uma palavra resolveu sair para passear. Assim que pisou na calçada percebeu que o passeio não era livre nem despretensioso. No momento em que respirou o ar da rua, se deu conta de que estava presa a um começo e de que era, ela mesma, o começo de uma história.