[RESENHA] A BOA FILHA – KARIN SLAUGHTER

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A boa filha é a primeira obra enviada pela nova caixa da TAG, a TAG INÉDITOS. Nesta nova modalidade, são enviados livros que estão fazendo sucesso lá fora e que ainda não foram publicados no Brasil. Caso tenham interesse, cliquem aqui para assinar com meu link e ganhar 35 reais em créditos na loja da TAG 😉

A boa filha é um excelente thriller sobre o qual é difícil falar muito sem dar muitos spoilers, mas o que podemos dizer com segurança é que é uma história que gira em torno de três questões principais: (1) trauma; (2) irmandade; (3) perdão.

O trauma inicial, do qual temos uma primeira versão no prólogo, mas que é constantemente recontado e reelaborado e só bem no final do livro atingimos um panorama completo de tudo que aconteceu, marca de formas distintas as irmãs Charlie e Sam. Enquanto a primeira parece sofrer marcas mais psicológicas do que físicas, tendo permanecido ao lado do pai na cidade em que tudo aconteceu, a segunda é obrigada a conviver todos os dias no espelho com as consequências visíveis da tragédia e acaba construindo uma nova vida, longe da cidade natal e afastada do pai e irmã.

Somos, ao menos a princípio, apresentados a duas mulheres e duas formas diferentes de lidar com o trauma. Além disso, os diversos recontos do episódio traumático nos mostram como a memória pode ser complexa e imprevisível. Até o que parece claro, óbvio e irretocável pode não passar de uma reelaboração de nosso cérebro e, portanto,

“você só pode ver algo quando está de fora”.

O reecontro das irmãs Quinn e a consequente reconstrução da sua relação, a qual vamos compreendendo aos poucos porque e em que circunstâncias se desmantelou, torna um dos grandes temas do livro a irmandade. Qual é o teor e o limite desse amor entre irmãs que elas tem? O ódio é maior que o amor? A sua dor é mais importante que a ajuda que a sua irmã precisa de você? Até onde elas estão dispostas a ir uma pela outra?

As duas são personagens bastante complexas e falhas, o que leva o que poderia ser apenas mais um thriller a um outro nível. Conforme vamos nos aproximando das razões por trás de suas ações, vamos entendo sua relação, compreendendo seus erros e respeitando seus acertos. E, no final, nos apaixonamos até pelos seus defeitos.

Por fim, é uma história que acaba propondo uma discussão bastante interessante sobre o perdão e o direito de defesa de qualquer criminoso por mais clara que possa parecer sua culpa. Pois, mesmo sendo assim que o nosso sistema judicial funciona, assim como o estadounidense, não é propriamente assim que a nossa cabeça funciona não é mesmo? Se formos sinceros, muitos de nós não lutariam pelo direito de defesa de uma pessoa que “sabemos” que matou, feriu, estuprou.

No entanto, legalmente, TODOS tem o mesmo direito a um julgamento justo. E, por mais que não queiramos admiti-lo, alguém tem que ser responsável por sua defesa. O que acontece, porém, quando esta defesa é tão bem feita que o culpado acaba inocentado? Podemos perdoar o culpado? Podemos perdoar aquele diretamente responsável por salvar este homem? Até que ponto estamos dispostos a exercer o perdão? Até que ponto o perdão é sobre o perdoado e até que ponto ele é sobre quem perdoa?

Como vocês podem ver, apesar de ser um thriller rapidinho e mais voltado para o entretenimento, há muito o que se pensar sobre esta obra. Só foi uma pena que o processo de tradução e revisão dela tenha deixado a desejar, com um número de erros visíveis assombroso. Ainda assim, é uma história bastante poderosa e recomendo demais a leitura para todos!

Gostei tanto que já estou de olho em outros livros da autora. Já leu outros livros dela? Me recomende um 🙂

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[Volta aos livros em 80 mundos #12: Islândia] Pela boca da baleia – Sjón

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Por ter tido a oportunidade de ouvir a fala do autor inslandês na última edição da FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty, eu já comecei a ler Pela boca da baleia com algumas expectativas: sabia que seria uma obra que teria um viés mais ligada às raízes da tradição e da mitologia islandesa e que teria um forte lirismo, pois Sjón me pareceu ser daqueles autores com um estilo de escrito belo e poderoso.

Entretanto, esta obra se mostrou ser exatamente o que eu esperava e muito mais. Pois além de ter uma forma de escrita muito poética e nos apresentar uma Islândia mítica que nos dá um acesso bem particular a uma cultura que dificilmente teríamos oportunidade de conhecer de outra forma, Sjón constrói um personagem interessante, complexo e que se descola de sua referência bíblica (quem não lembra da história de Jonas e a baleia?), torna-se algo ainda maior.

“Assistir a um livro ser queimado é algo que me dói nos olhos… Nas chamas crepitantes, ouço o suspiro de quem compôs o texto, de quem reproduziu aquelas palavras, letra por letra, e o suspiro de quem as leu… Ouço como essa trindade respira como um único ser, inspirando e expirando, até que o fogo trague o fôlego dos pulmões e assim acabe com a união daquele ser que o livro nutrira, como o solo do qual emergem galhos de flores mais diversas…”

Além da instigante narrativa do caminho de Jónas, uma das maiores preciosidades desta obra é a espécie de dicionário cultural que intercala os capítulos, nos dando definições de espécies da fauna e flora locais, entre outros seres relevantes para a história; observemos a definição que ele apresenta para “Aeronave”, por exemplo:

“ocorreu um evento singular na região ocidental da Islândia – uma corda com uma âncora na ponta despencou do céu e ficou presa no calçamento de uma igreja. Isso foi testemunhado por toda a congregação; as pessoas que deixavam a igreja tocaram naquilo. Passado algum tempo, um homem desceu pela corda e tentou soltar a âncora; ao ser tocado pelas pessoas, o homem esmoreceu como um peixe fora d’água, e a marca da morte logo se fez presente sobre ele. O pastor proibiu que voltassem a tocá-lo e mandou que as pessoas soltassem a âncora. Com isso, tudo foi ao ar, o homem, a corda e a âncora, e ninguém nunca mais os viu.”

Temos, desse modo, em Pela boca da baleia, uma história muito interessante, repleta de belas imagens, fonte de reflexão sobre o lugar do homem em um espaço em que o mítico ainda é tão presente e que, para completar, ainda nos apresenta uma cultura tão diferente da nossa quanto a islandesa.

[Volta aos livros em 80 mundos #11: Espanha] A PRAÇA DO DIAMANTE – Mercè Rodoreda

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Livro enviado pela Tag Livros em Dezembro de 2017, A praça do diamante é um romance que faz uso do panorama histórico da Guerra Civil Espanhola para construir uma narrativa em torno de uma mulher simples, sem participação direta na guerra, mas que sofre, enquanto catalã, os efeitos da Guerra e de uma cultura machista que frequentemente tolhe sua liberdade.

“O Quimet não via que o que eu precisava era de um pouco de ajuda em vez de passar minha vida só ajudando, e ninguém reparava em mim, e todo mundo me pedia mais, como se eu não fosse uma pessoa”.

Nossa protagonista é Natàlia, ou, como será chamada durante boa parte da narrativa, Colometa, o equivalente do nosso “pombinha” em catalão. É através dela e de sua vida, sob muitos aspectos, comum que iremos acessar esse momento histórico importante e nos situar na praça da diamante, na Catalunha, na Espanha de Rodoreda.

É um romance que tem um ritmo próprio, que em alguns momentos parece se tornar lento demais, porém que possui uma linha de desenvolvimento de personagem interessante que nos prende na história. Embora a localização histórica da trama tenda a um realismo, a autora gosta de brincar com o existencialismo e até com certo surrealismo, uma mistura que, para mim, caiu muito bem.

“E por último entendi o que as pessoas queriam dizer quando falavam essa pessoa é de cortiça… porque eu tinha virado uma pessoa assim. Não porque fosse de cortiça, mas porque tive de me fazer de insensível, como cortiça”.

Acabamos tendo aqui um romance que fica entre um Kafka, uma Clarice Lispector e um relato histórico, de modo que se torna uma leitura instigante e complexa, nos envolvendo e, ao mesmo tempo, impedindo que o leitor faça uma leitura simplificada. Desde a guerra à forma como Colometa é tratada pelos homens que circulam à sua volta, há muito mais o que sentir e pensar do que pode parecer a princípio.

[Volta aos livros em 80 mundos #10: Uruguai] AS VEIAS ABERTAS DA AMÉRICA LATINA – EDUARDO GALEANO

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Em Veias abertas da América Latina, um dos mais importantes livros de não-ficção do uruguaio Eduardo Galeano, o autor pinta um interessante panorama da história social e econômica da região. Fazendo uso de capítulos curtos, que quase funcionam como ensaios independentes, Galeano ilumina uma série de aspectos da história e do funcionamento político da América Latina, ilustrando aspectos importantes da história colonial e recente (até os anos 70, pelo menos, quando o livro foi publicado) não só do Uruguai, mas de boa parte da América Latina, com destaque especial para as interepretações fornecidas sobre o Brasil e México.

“Segundo a voz de quem manda, os países do Sul devem acreditar na liberdade de comércio (embora não exista), em honrar a dívida (embora seja desonrosa), em atrair investimentos (embora sejam indignos) e em entrar no mundo (embora pela porta de serviço)”.

Embora seja uma verdadeira aula de história que eu nunca tive a oportunidade de ter na escola (embora tenha tido excelentes professores), me chamou especial atenção o modo como o autor é capaz de fazer uma leitura perspicaz e poderosa da história contemporânea a ele. Ao comentar eventos de poucos anos antes da publicação do livro, especialmente nas relações polícias estabelecidas entre ditaduras latinas e o governo dos EUA, ele não parece se deixar influenciar pelo calor do momento e consegue fazer observações que, até hoje, mantém-se pertinentes para o estudo do assunto.

“A causa nacional latino-americana é, antes de tudo, uma causa social: para que a América Latina possa nascer de novo, será preciso derrubar seus donos, país por país”.

É o tipo de livro que se lê melhor aos poucos, uma seção de cada vez, sem pressa, pois há muito o que pensar e pesquisar sobre o assunto. Ainda assim, considero uma excelente forma de conhecermos mais de nossa história e, especialmente, da história de nossas nações companheiras, as quais frequentemente não damos a devida importância. Quem ainda não leu esse clássico e busca uma introdução à discussão das origens dos grandes problemas que a América Latina compartilha, vai encontrar nesse livro uma excelente escolha.

[VOLTA AOS LIVROS EM 80 MUNDOS #9: PALESTINA] QISSAT: Short Stories by Palestinian Women – Org. Jo Glanville

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Um dos mundos que eu imaginava, com razão, que seria mais difícil encontrar material para o projeto era justamente a Palestina, e de fato é praticamente inexistente em língua portuguesa a literatura palestina. Em inglês, no entanto, existem mais opções que poderia imaginar e uma das que mais chamou minha atenção foi justamente a obra Qissat, uma coletânea de contos escritos por mulheres palestinas que mescla histórias sobre a palestina com histórias sobre a vida do cidadão palestino que, por diversas questões políticas, se vê exilado de seu país.

Falar sobre cada conto individualmente seria demasiado extenso para os nossos objetivos aqui, mas gostaria de destacar algumas autoras e pontos de vista que me chamaram a atenção especificamente.

O conto “Barefoot bridge”, por exemplo, da autora Randa Jarrar, trata de uma jovem menina que, vivendo longe da palestina, volta à terra do seu pai para o enterro do seu avô paterno. Em termos de perspectiva única, esse é um dos que eu considero mais interessantes, pois nos dá a perspectiva de alguém que tem uma relação com a Palestina que não é nem de pertencimento e nem de estrangeirismo; está em algum lugar entre os dois.

“I wonder if she tells me this because she thinks I’m half a girl since I’m only half-Palestinian”.

[Eu me pergunto se ela está me contando isso porque ela considera que eu sou meia-garota já que sou apenas meio-palestina.]

Outro conto que chamou muito minha atenção foi “The tables outlived Amin”, de Nuha Samara, onde acompanhamos um homem pacificador, contra a interferência de milícias e terrorismo para agir politicamente, enquanto seu amigo Amin se mostra cada vez mais próximo de um revolucionário, no sentido de um homem disposto a pegar em armas e colocar sua própria vida em risco em nome de um ideal. Assim, entre os dois, temos a oportunidade de entender melhor que tipo de coisa está em jogo nessa discussão, assim como vermos de que modo cada um dos lados tem sua razão.

“But a revolutionary initiates change while a dreamer simply goes on dreaming”

[Mas um revolucionário dá início à mudança, enquanto um sonhador apenas continua sonhando]

Outros temas, como o machismo, o casamento, a oportunidade de ter uma terra para chamar de sua e no que consiste a formação de um mártir perpassam os contos, cada um nos dando um novo ângulo pelo qual podemos observar a cultura palestina. Quem lê em inglês e se interessa pelo assunto, não pode perder a oportunidade de ler essa coletânea.

[RESENHA] O LADO FEIO DO AMOR – COLLEEN HOOVER

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Além de que eu tinha vontade de conhecer a Colleen Hoover e que eu via muita gente falando bem especificamente desta obra da autora, minha informação tanto quando eu comprei esse livro, quando eu comecei a lê-lo era inexistente. O próprio título e capa dão dicas bastante importantes, que serão exploradas ao longo da narrativa, mas a única coisa que eu tinha de fato eram expectativas, porém não tinha conhecimento nenhum sobre os detalhes do enredo, de modo que tudo me surpreendeu, tanto o positivo quanto o negativo

O livro é construído em dois tempos narrativos paralelos: o presente, onde a relação entre Tate e Miles se desenvolve, a partir do momento em que Tate se muda temporariamente para o apartamento do seu irmão, vizinho e grande amigo de Miles; e o passado, seis anos antes, onde está escondido o grande trauma que moldou a personalidade presente de Miles.

Colleen Hoover manipula com uma proeza impressionante esses dois tempos narrativos, assim como os diferentes pontos de vista que comandam cada capítulo. O estilo de escrita de Hoover é extremamente envolvente, fazendo com que o leitor se interesse pelos personagens e queira desvendar seus segredos. Além disso, as cenas mais calientes do livro são muito bem escritas, sem parecerem gratuitas, forçadas ou simplesmente absurdas, como acontece com frequência em certos romances.

“Não aturo certas coisas que já vi muitas amigas aturarem. No entanto, percebo que não paro de criar desculpas para ele, como se algo realmente fosse capaz de justificar o que fez na semana passada”.

No entanto, como a citação acima ilustra, o relacionamento que se desenvolve, no presente, entre Tate e Miles rapidamente ganha contornos preocupantes ao se aproximar demais de um abuso psicológico para o meu gosto. Fica claro desde o início que existe algo no passado dele que explicaria de alguma forma suas atitudes, mas mesmo sendo um fato realmente muito duro e triste, não justifica o comportamento dele. NADA justifica o tipo de comportamento que ele tem.

Assim, eu acabei me sentindo quase culpada de ter gostado tanto do livro. Pois mesmo sendo um livro muito bem escrito, fica a sensação de que a mensagem que ele passa não condiz muito bem com o que eu acredito e defendo. Acredito, no entanto, que precisamos compreender uma obra dentro de seus objetivos, e não dentro do que esperamos dele. E, nesse sentido, a forma como o personagem Miles tem seus erros relevados facilmente é apenas um pequeno problema dentro de uma narrativa muito bem elaborada e que promove uma leitura divertida, intensa e que talvez possa servir, justamente por esse problema, para discutirmos o assunto.

“O amor nem sempre é bonito, Tate. Às vezes você passa o tempo inteiro desejando que um dia ele mude. Que melhore. E aí, antes que perceba, você já voltou para a estaca zero e perdeu o seu coração em algum lugar no meio do caminho”.

[RESENHA] Um de nós está mentindo – Karen M. McManus

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“Eu sou o narrador onisciente”.

Essa é uma das poucas frases que temos oportunidade de ouvir da boca de Simon, o dono do blog de fofocas da escola, antes que ele, no que parece ser uma reação alérgica, sufoque e acabe morrendo na sala de detenção, na companhia dos quatro alunos que se tornarão os quatro principais suspeitos quando fica claro que se trata de um assassinato premeditado. A narrativa, dividida em quatro pontos de vista, segue, assim, as repercussões das investigações e vai, aos poucos, nos revelando segredos que Simon sabia sobre cada um dos suspeitos, dando aos quatro motivo e oportunidade para executar o assassinato.

Os quatro são o perfeito estereótipo de qualquer história que se passe em um High School americano: Bronwyn é a gênia, com notas perfeitas e com grandes chances de ser aceita em Yale; Cooper é o atleta perfeito, prestes a conseguir convites tanto de universidades quanto de times profissionais por conta de seu talento no beisebol; Addy é a garota mais conhecida por ser namorada do cara mais conhecido do colégio, Jake, que por mérito próprio e que parece fazer sua vida girar sempre em torno de um homem; Nate é o delinquente, que está em condicional depois de ser preso por tráfico de drogas.

Embora o livro faça uso de muitos estereótipos, a forma como a autora os trabalha torna o livro interessante e, até certo ponto, bastante surpreendente. Não dá para dizer que o final não passou pela minha cabeça, mas não acho que seja previsível ou que isso se torne um problema. Apenas demonstra que o livro segue uma linha constante, fornecendo dicas e revelando segredos ao leitor até que, tanto nós quanto os personagens, conseguem chegar à conclusão correta sobre os eventos que abrem a trama.

“Eu me senti mal vendo Simon morrer. Não sou sociopata. Naquele momento, quando ele ficou com aquela cor horrível e lutou para respirar – se eu pudesse ter impedido, eu teria”.

Conforme a trama avança, mais e mais segredos são revelados. Conhecemos a fundo nossos quatro suspeitos e, inevitavelmente, nos apaixonamos por eles. O desenvolvimento destes personagens, o modo como eles vão lidar com a suspeita que recai sobre eles e com os segredos que começam a ser revelados, começa a ganhar protagonismo até que se torna um dos grandes trunfos da obra.

Mais do que descobrir quem matou, é interessante descobrir como cada um irá se comportar e como todos, em alguma medida, irão mudar com os eventos que os aguardam. Senti, entretanto, que, para um narrativa escrita a partir da perspectiva de quatro personagens, alguns claramente se sobressaem ao longo da história, enquanto outros são mais óbvios e crescem pouco em comparação. Ainda assim, é uma leitura gostosa, que engaja o leitor desde as primeiras páginas e não decepciona.