Desafios Literários para 2017

fixo

Desafio I: 24 livros para 2017 {TBR Bottle} 


Sortearei no meu Instagram dois livros da lista por mês, um maior (G) e um menor (P), para ir balanceando e chegar ao fim de 2017 tendo lido pelo menos esses 24 livros que estão na estante há mais tempo do que deveriam. Se animou e quer fazer o mesmo? É muito simples: separe 12 livros tamanho P e 12 livros tamanho G da sua estante, coloque sua lista aqui nos comentários e vamos nessa juntos! Aqui vai a minha lista:

  1. Jurassic Park (G) Novembro
  2. 20.000 Léguas Submarinas (G) Outubro
  3. Boa Noite (P) Março √
  4. Macunaíma (P) Setembro
  5. Patrimônio (P) Novembro
  6. Grandes Esperanças (G) : Janeiro √
  7. Anexos (G) Fevereiro √
  8. O Apocalipse dos Trabalhadores (P) Abril √
  9. O Médico e o Monstro (P) Fevereiro √
  10. A Consciência de Zeno (G) Dezembro
  11. O Último Adeus (G) Maio
  12. Tampa (P) Julho √
  13. Asking for it (G) Julho √
  14. As Vinhas da Ira (G) Março √
  15. O Quarto de Jacob (P) Maio
  16. Planeta dos Macacos (P) Agosto √
  17. A Contadora de Filmes (P) Dezembro
  18. Moby Dick (G) Abril √
  19. Este Lado do Paraíso (G) Junho √
  20. Pawana (P) Junho √
  21. Mil e uma Noites (G) Setembro
  22. Maya (G) Agosto
  23. Sidarta (P) Outubro
  24. O Curioso Caso de Benjamin Button (P) : Janeiro √

Clique em Leia Mais aqui embaixo para ver os outros desafios que me propuz para 2017:

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[RESENHA] O lado escuro da madrugada – Roberto Giacundino

Padrão
  • Este livro foi recebido pelo blog em parceria com a Agência Literária Oasys Cultural

Em seu livro de estreia, Roberto Giacundino constrói um inesperado romance policial envolvendo um assassinato de um famoso publicitário em pleno Teatro Municipal de São Paulo e uma repórter que logo larga suas obrigações com a emissora de televisão para lá e passa a se dedicar com afinco em descobrir quem é o responsável por este crime.

O problema central da investigação é: fica claro desde cedo que, como o crime foi cometido durante uma cerimônia de premiação, após a vítima ter recebido um prêmio por uma campanha publicitária contra a discriminação, que o assassino muito provavelmente é um dos convidados. Poderia ser a ex-namorada, enciumada depois de ser trocada por uma menina? Poderia ser um dos funcionários da emissora de TV que fora visto discutindo com a vítima alguns minutos antes de sua morte? Poderia ser algum membro de uma organização neonazista insatisfeito com a campanha contra a discriminação?

As possibilidades parecem ser infinitas. Mas só parecem infinitas, pois encontram neste livro um romance policial no estilo clássico, em que aos poucos vão surgindo pistas, algumas que destraem nossa heroína e outras que a deixam mais perto da verdade. O momento da revelação é bem construído, tanto por ser uma cena cheia de ação quanto por conseguir nos surpreender sem fazer com que nos sintamos enganados; a resposta estava ali, ao nosso alcance, o tempo todo.

No entanto, como seria natural, principalmente em um romance de estreia, existem dois pontos que poderiam ter sido melhores, na minha opinião. Primeiro, há muitos capítulos em que conhecemos o background da protagonista, a jornalista Sandra Garcia. Ela tem uma história muito interessante, em que muitos fatos do passado podem servir de base para compreendermos melhor suas ações do presente, mas senti certo exagero nesta “volta ao passado”.

Outro aspecto que poderia ter sido melhor trabalhado no livro é o quanto de informação o autor nos dá, isto é, o bom e velho “Show, don’t tell” (Mostre, não diga). Isto porque em mais de uma ocasião senti que o autor estava sendo repetitivo, me informando de coisas que já tinham ficado claras anteriormente.

Entretanto, mesmo com estes pequenos problemas, eu gostei bastante da leitura e recomendo para quem está atrás de um romance policial que mistura elementos tipicamente brasileiros com aqueles que fazem parte da tradição do gênero. Também é uma boa pedida para quem, como eu, costuma sentir falta de escritores homens capazes de escrever personagens femininas tão bons quanto os masculinos.

 

[RESENHA] Bom dia, Verônica – Andrea Killmore

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Uma das leituras mais interessantes e inesperadas que fiz neste ano, Bom dia, Verônica marca, sem dúvida, um momento ímpar na literatura policial brasileira. Digo isto porque este é sem sombra de dúvida o melhor livro policial brasileiro que eu já li e potencialmente uma das obras mais interessantes que o gênero já produziu em escala internacional.

Não vou aqui, naturalmente, dar qualquer tipo de spoiler sobre o que acontece no final, que foi bastante surpreendente, para mim,  mas sim tentar explicar para vocês em maior detalhe porque gostei tanto deste livro e porque eu acho que todos os leitores interessados em histórias mais fortes deveriam conhecê-lo.

Era o primeiro dia do fim da minha vida.

Esta é a primeira frase do livro e, a partir dela, e dos acontecimentos do primeiro capítulo, já somos jogados dentro de uma história cheia de mistérios, morte e em que os defeitos e equívocos da nossa protagonista, Verônica, parecem destinados a fazê-la falhar em tudo, seja na vida pessoal, na vida profissional ou nas suas investigações feitas por conta própria.

Para mim, no entanto, foi inevitável me encantar por esta personagem tão real (e errada), de modo que foi uma leitura bastante empática: cada sofrimento, cada conquista, cada acontecimento era como se fosse comigo. E, por isso, talvez não tenha sido uma leitura que me fez muito bem, mas me fez pensar muito sobre a brutalidade constitutiva da nossa sociedade, assim como sobre a ineficácia do nosso sistema legal.

Isto porque os dois casos com os quais Verônica se vê envolvida ao longo desta obra envolvem dois homens, criminosos, cuja relação com as mulheres à sua volta é abusiva, física e emocionalmente, e por meio destes casos, Andrea Killmore faz uma forte denúncia contra uma série de questões que marcam a nossa cultura: machismo, abuso de poder, corrupção, impunidade.

E, se já não bastasse a qualidade inegável da obra em si, tanto em termos de enredo quanto em termos de estilo de escrita, aqueles que se interessam em saber mais sobre a autora da obra e o quanto há de vida real nela vão encontrar em Andrea Killmore um desafio, como a própria editora deixa claro na Quarta Capa:

Quanto menos você souber sobre ANDREA KILLMORE, menos risco vai correr. Amiga íntima do perigo, a nova autora da Darkside Books é uma revelação que não pode se revelar, e seu verdadeiro nome continua um mistério até para a editora. Em outra vida, ela foi alguém importante dentro da polícia. Após trabalhar infiltrada em um caso e sofrer uma grande perda pessoal, a autora se viu obrigada a assumir uma nova identidade. E com ela, uma nova vocação. Escondida nas sombras, buscou na literatura a saída para vencer a depressão e não calar sua voz. Assim nasceu Andrea Killmore, pseudônimo batizado com sangue.

Temos, desse modo, mais um excelente livro publicado pela DarksideBooks, em que a cada página chegamos um passo mais perto de solucionar o mistério anterior mas, ao mesmo tempo, vemos mais duas ou três perguntas serem postas à nossa frente, nem toda das quais seremos capazes de responder ao final da leitura.

[RESENHA] A lógica inexplicável da minha vida – Bejamin Alire Sáenz

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Eu estava com muito receio quando recebi este livro na malinha de Junho do Turista Literário, pois, apesar de ter gostado, a leitura de Aristóteles e Dante descobrem o segredo do universo ficou muito aquém das minhas expectativas, mas estava enganada em me sentir assim. Existem alguns temas comuns, sim, aos dois, mas senti nesta obra uma escrita bem mais completa e interessante que no anterior.

Nosso protagonista, Sal, está prestes a concluir o último ano do Ensino Médio e passa a se ver confrontado com a necessidade de deixar para trás a bolha em que veio vivendo, criado por um pai basicamente perfeito e cercado de livros, arte e amor familiar. Em meio a impulsos violentos, dificuldade de se considerar um “mexicano de verdade” e a doença da sua avó, Sal começa a conhecer uma vida bem mais complicada da que ele vinha vivendo até então. Como bem lembra Sam, sua melhor amiga:

Sei que às vezes você acha que as pessoas são como livros. Mas nossa vida não tem uma trama perfeitamente lógica, nem sempre dizemos coisas bonitas e inteligentes como os personagens de um romance.

Pode parecer estranho ler estas palavras em um romance, mas acho que esse trecho resume muito bem o processo pelo qual Sal irá passar ao longo do livro: o de aceitar as contradições da vida, seja nos outros ou em si mesmo, enquanto tenta desvendar quais serão seus próximos passos.

Uma das coisas mais bonitas do livro é o modo como Sal tem, tanto em sua família, quanto em Sam e Fito, o apoio que ele precisa para enfrentar as novas situações diante das quais ele se vê aqui. Às vezes ele nem se dá conta, mas é essa estrutura, a irmandade que ele constrói com Sam e Fito e o poderoso mundo familiar no qual ele está inserido, que são a base para que ele consiga lidar com os acontecimentos de A lógica inexplicável da minha vida.

Sáenz conseguiu construir um livro delicioso, cheio de personagens únicos e apaixonantes, balanceando muito bem risos e lágrimas e nos dando um mundo completamente real que faz com que queiramos ser amigos de Sal e filhos de Vicente. Em A lógica inexplicável da minha vida o autor fala de morte, de vida, de mudanças, de aceitação e, com isso, da nossa vida, estejamos ou não neste delicado momento pelo qual Sal passa ao longo da obra.

[RESENHA] O Planeta dos Macacos – Pierre Boulle

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Apesar de ser um dos maiores clássicos da Ficção Científica, eu nunca tinha lido a obra original, do escritor francês Pierre Boulle e, apesar de existirem infinitas versões para o cinema, eu nunca vi (ou não lembrava de ter visto) nenhuma delas. Assim, só tinha uma vaga ideia de que a história de O Planeta dos Macacos envolvia uma civilização em que os macacos é que tinham o verdadeiro poder. E devo dizer que foi maravilhoso fazer esta leitura assim, sem uma ideia muito clara do que me esperava.

Nós, pelos olhos do protagonista Ulysse Mérou (a semelhança com o Ulysses – ou Odisseu – de Homero não é mera coincidência), nos vemos diante de um planeta desconhecido, onde, de uma forma que só ao final da obra será esclarecida, os seres humanos já não possuem a mesma capacidade de racionalização e comunicação que nós, humanos terráqueos. Enquanto isso, são os macacos que são a raça inteligente que comanda este planeta, dividindo seu poder entre os Chipanzés, os Gorilas e os Orangotangos.

Em um texto que consegue combinar ação, aventura, mistério e um forte caráter reflexivo, Boulle constrói uma narrativa extremamente crítica do modo como tratamos aquelas espécies que consideramos estarem abaixo de nós em termos de inteligência e capacidade de comunicação, principalmente quanto ao uso de tais espécies pela ciência.

Se fossemos nós, e não o ratinho de laboratório, sendo testados das formas mais absurdos, em estudos que poderiam ser comparados à tortura, aceitaríamos os testes em animais com a mesma facilidade? O Planeta dos Macacos mostra ao leitor que não, pois quando o mesmo comportamento é aplicada ao nosso protagonista, rapidamente nos horrorizamos.

Foi especialmente interessante ler O Planeta dos Macacos sem saber o que iria acontecer pois a história conta com uma grande reviravolta e, quando você ainda não sabe o que vem pela frente, este momento faz com que você se veja confrontada com a ideia de que talvez este lugar todo de superioridade humana, frente aos outros animais, não seja assim tão óbvio ou, talvez, nem real seja.

E, se você ainda não correu para ler este livro, mais dois motivos para comprá-lo nesta edição arrasadora da Aleph: tem uma penca de material extra no final e o projeto editorial envolve letra em cor marrom em vez da clássica preta. Como não amar?

[RESENHA] Olhos d’água – Conceição Evaristo

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Nunca é muito fácil falar de um livro de contos, pois não dá para entrar muito na história de cada um ser contar tudo o que acontece. Podemos, no entanto, tecer alguns comentários acerca do tema geral que une os quinze contos presentes em Olhos d’água, assim como da qualidade da escrita de Conceição Evaristo.

Doutora em literatura comparada pela UFF, Conceição Evaristo é nascida e criada em uma favela de Belo Horizonte, capital mineira, e é justamente esse contato com aqueles de quem nossos livros raramente falam que a autora resgata em Olhos d’água, assim como em outras obras de sua autoria. Aqui nos deparamos com favelados, moradores de rua, empregadas domésticas, entre outros, e sua história é contada com uma autenticidade que não acredito ser possível de ser conquistada por uma voz de fora.

Sobre este status que vem ganhando de ser a voz negra brasileira contemporânea, foi especialmente interessante ouvir a autora durante a FLIP deste ano, pois ela reconhece o seu lugar proeminente na literatura brasileira contemporânea, sim, mas o usa para chamar a atenção para outros autores frequentemente negligenciados, assim como sua obra chama a nossa atenção para camadas da população completamente invisíveis para aqueles que detém o poder.

Conceição Evaristo tem uma narrativa que consegue ser doce e dura na mesma medida e, às vezes, ao mesmo tempo. E, assim, vai nos conduzindo por uma constelação de personagens que tem uma vida própria, dentro de cada conto, mas que também podem ser pensados em conjunto, seja enquanto retratos da nossa sociedade, seja enquanto partes de uma mesma história.

Entre Dorvi e os companheiros dele havia o pacto de não morrer. Eu sei que não morrer, nem sempre é viver. Deve haver outros caminhos, saídas mais amenas.

[“A gente combinamos de não morrer]

 

[RESENHA] A Resistência – Julián Fuks

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Meu irmão é adotado, mas não posso e não quero dizer que meu irmão é adotado. Se digo assim, se pronuncio essa frase que por muito tempo cuidei de silenciar, reduzo meu irmão a uma condição categórica, a uma atribuição essencial: meu irmão é algo, e esse algo é o que tantos tentam enxergar nele, esse algo são as marcas que insistimos em procurar, contra a vontade, em seus traços, em seus gestos, em seus atos. Meu irmão é adotado, mas não quero reforçar o estigma que a palavra evoca, o estigma que é a própria palavra convertida em caráter. Não quero aprofundar sua cicatriz e, se não quero, não posso dizer cicatriz.

Este é o primeiro parágrafo de A resistência, parágrafo este que funciona com perfeição como cartão de visitas para o romance ao deixar claro logo de início dois traços fundamentais que irão guiá-lo: a linguagem enquanto resistência e a obra como autoficção sobre a vida e a relação do autor com seu irmão.

O estilo de Fuks nos conquista logo neste parágrafo e rapidamente nos vemos enredados em uma trama memorialista em que a relação familiar se confunde com a situação política dos anos 1970 na Argentina e no Brasil. Ao mesmo tempo, a linguagem e a busca do autor diante da impossibilidade de encontrar as palavras certas ganha protagonismo e traz-nos para dentro do processo de construção da obra.

Sei que escrevo meu fracasso. Não sei bem o que escrevo. Vacilo entre um apego incompreensível à realidade – ou aos esparsos despojos de mundo que costumamos chamar de realidade – e uma inexorável disposição fabular, um truque alternativa, a vontade de forjar sentidos que a vida se recusa a dar.

É um romance que engana, pois com capítulos curtos e apenas 139 páginas poderíamos pensar que é leve e fácil, mas, embora extremamente envolvente, dá trabalho ao leitor. As relações resistem, a linguagem resiste, tudo é trabalhado e coloca o leitor em uma posição de confronto e reflexão constantes. Mas como compensa! Um incrível exemplo de como a literatura brasileira não deixa a desejar a nenhuma outra!

Foi especialmente interessante, para mim, ter a oportunidade de ouvir o autor falar sobre como foi seu processo de construção deste livro, enquanto auto-ficção, na Flip e conhecê-lo, inclusive, e logo em seguida ler o livro. Acredito que ter a oportunidade de ouvir, mesmo que brevemente, o autor falar sobre o seu processo aproxima-nos de sua obra, ainda mais no caso deste romance que fala tanto sobre si mesmo enquanto processo.

 

[RESENHA] Persépolis – Marjane

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Persépolis é uma história em quadrinhos autobiográfica, originalmente publicada em quatro volumes, em que acompanhamos a infância e juventude de Marjane Satrapi, nascida no final dos anos 60 no Irã que, aos 10 anos, acompanhou a derrubada do Xá e a construção de uma ditadura islâmica no poder do seu país.

Uma das coisas mais legais desse quadrinho é que ele acaba sendo extremamente educativo, principalmente quanto à cultura iraniana pré-ditadura islâmica. Nós, ocidentais, temos uma ideia do que é o Irã e do que é a cultura islâmica que é, em muitos pontos, equivocada e o tom didático aliado a um humor bem particular tornam esta uma leitura que realmente nos dá uma outra dimensão do que é a região da antiga Pérsia (não é à toa que Satrapi fala em Persépolis e não propriamente em Irã).

Achei impressionante também  como a autora faz questão de tornar seu desenho e seu uso do formato “quadrinho” o mais sutil possível, de forma que não é raro ouvir alguém dizer que no meio da história esqueceu que estava lendo uma HQ e começou a sentir que estava lendo mesmo um relato corrido em primeira pessoa (só no encontro do #LeiaMulheres do Rio de Janeiro foram umas cinco ou seis pessoas fazendo este tipo de afirmalção).

Um outro ponto muito interessante é que Satrapi não se furta a revelar-nos os aspectos menos louváveis deste período da sua vida. Existe um episódio, em especial, bem problemático em termos éticos, que chama a atenção. Por que fazer questão de nos contar algo tão questionável? Para nos mostrar que ela não é uma heroína. Ela não é um mártir. Ela é uma jovem mulher em uma situação complicada e que, como tal, comete erros. Marjane, a protagonista, é apenas humana. E o que ela nos mostra é exatamente isto: está tudo bem ser apenas humana. Está tudo bem errar. Está tudo bem não ser sempre a mulher forte, revolucionária e quebradora de padrões.