[RESENHA] O ÓDIO QUE VOCÊ SEMEIA – ANGIE THOMAS

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‘Pac disse que Thug Life, “vida bandida”, queria dizer The Hate U Give Little Infants Fucks Everybody, ou “o ódio que você passa pras criancinhas fode com todo mundo”.

Esta é a analogia que conduzirá (embora ela só funcione com perfeição na língua inglesa), de certa forma, este livro com cara de YA (Young Adult) mas com uma força, verdade e discussão política que muitos livros “para adultos” não possuem. Em meio a um bairro dominado pelo tráfico de drogas e pela disputa territorial das gangues, Starr busca encontrar a si mesma entre o seu bairro, majoritariamente negro e pobre, e sua escola privada, majoritariamente compostas por brancos e ricos, entre os quais está Chris, seu namorado branco E legal.

Como se lidar com seus anos de formação em meio a tanto conflito não fosse suficiente, Starr se vê diante de uma cena que também é bem mais comum que deveria aqui, no Brasil: em uma abordagem completamente tendenciosa e racista, vê seu amigo ser assassinado brutalmente por um policial, branco, e morrer em seus braços enquanto ela mesma também é mantida sob a mira da arma do mesmo policial.

É uma cena muito dura, e que faz com que este livro realmente não seja para qualquer um, embora talvez seja justamente a dureza dela que faça com que seja tão importante que ele seja lido. Afinal, esta é uma realidade cruel: o número de jovens negros que morrem todos os dias na periferia é inaceitável. Mas, quando não é com a gente, é fácil fingirmos que não vimos. Quando é um menino qualquer que a polícia diz ter envolvimento com o tráfico de drogas, é fácil não se importar.

Angie Thomas, no entanto, nos coloca em uma posição de tamanha empatia e tão rapidamente que já no assassinato do amigo de Starr, Khalil, que sabemos que irá acontecer e se dá antes da página 30, já nos importamos bastante com ele. Assim, não somos apenas observadores da jornada de Starr por justiça e verdade; nós também queremos lutar com ela.

Outro aspecto da história que é muito interessante é o protagonismo feminino, pois embora seja também uma vítima, Starr em nenhum momento se deixará ser vitimizada ou ser salva por alguém, seja seu namorado branco, seja seu pai, seja seus irmãos, seja seus amigos. De modo muito fidedigno à realidade, Starr sofre o baque do trauma e demora a encontrar a sua coragem e a sua força para lutar contra a situação opressiva em que se vê repentinamente.

E, para quem está mais interessada no aspecto mais YA mesmo da história, Angie Thomas não decepciona. Mesmo com um tema tão forte, ela consegue criar diálogos engraçados, referências à cultura POP que vão de Harry Potter The Fresh Prince of Bel-Air (também conhecido como Um Maluco no Pedaço por nós) e uma mensagem realista, porém com um importante toque de esperança, nos mostrando a importância da comunidade se unir e lutar pelos seus direitos.

 

 

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[RESENHA] Farmácia Literária – Ella Berthoud e Susan Elderkin

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Em Farmácia Literária, somos apresentados ao método da Biblioterapia de tratar o paciente com indicações literárias, ou, nas palavras das autoras, “prescrição de ficção para os males da vida”. Assim sendo, neste livro vamos sendo guiados pelos mais diversos males, dos físicos aos psíquicos, e recebendo indicações de livros que podem nos ajudar com cada um deles.

O ponto mais interessante do livro é, sem dúvida, a oportunidade de observar o método das autoras nas suas indicações. Em alguns casos, como no caso da culpa, as autoras entendem que um livro como Crime e castigo, onde a culpa rege o comportamento do protagonista, podem ajudar, traçando um método baseado na identificação. Já em outros, como no caso da perda de libido, a indicação é de um livro onde sobra libido para todos os lados, o Elogio da madrasta.

E, seguindo a lógica que as autoras estabelecem para cada vocábulo, é impossível não se ver pensando para que mal eu recomendaria meu livro favorito? Ou até aquele livro que eu não gostei tanto assim, mas que poderia ser uma ótima leitura para alguém passando por X.

Além disso, o livro acaba se tornando uma grande lista de indicações, pois todos os livros, de uma forma ou de outra, estão sendo recomendados por pessoas que entendem de assunto e que fazem questão de valorizar tanto os clássicos quanto literatura infanto-juvenil, passando ainda pelo fantástico e pela ficção científica.

Outra aspecto interessante do livro é que as autoras também listam males especificamente ligados à leitura, velhos conhecidos nossos, como Amnésia associada à leitura, Reverência excessiva por livros e Tendência a ler em vez de viver ( e os conselhos que elas têm para cursar-nos destes males são especialmente interessantes).

Agora, mesmo sendo escrito por biblioterapeutas, há um teor essencialmente pessoal nas indicações, como não poderia deixar de ser. Algumas sugestões que elas dão são, por exemplo, de livros que já li e que não gostei tanto, e consegui pensar em vários outros livros que serviriam melhor a mim. Portanto, recomendo muito a leitura, mas com ressalvas, pois o mais interessante é o modo como as autoras nos fazem pensar sobre nossas escolhas literárias e sobre o modo como cada livro pode nos ajudar, e não tanto a indicação específica que elas dão.

[RESENHA] O Conto da Aia – Margaret Atwood

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Publicado originalmente em 1985, o livro O Conto da Aia foi recentemente redescoberto, primeiramente, por leitores estado-unidenses que viram nele uma forma de lidar com seu novo presidente, Donald Trump, e, mais recentemente, por todos nós, graças à brilhante adaptação para a TV vencedora do Emmy e à sua reedição pela Editora Rocco. E que sorte a nossa que esta obra tenha sido, deste modo, redescoberta!

Em uma narrativa que te joga direto na história, sem muitas explicações didáticas sobre como este mundo se construiu, nos vemos diante de um Estados Unidos da América em que as mulheres perderam a maior parte de seus direitos básicos e, em um contexto marcado pela opressão daquilo que não pode ser dito, sob pena de enforcamento no “muro”, vemos personagens lutando pela sua sobrevivência ao novo sistema instaurado. Somos conduzidos especialmente por uma Aia, aqui denominada Offred, que, depois de ter sua família, emprego e direitos arrancados de si, luta para preservar o pouco que resta de si mesma em meio a um contexto que busca transformá-la em mero veículo fértil.

Um dos aspectos mais interessantes deste  livro é o quanto ele é baseado em pequenas sutilezas. Um olhar, um gesto, um sussurro na madrugada podem ter maiores consequências que qualquer tentativa de grito de protesto. Cada detalhe, por mais imperceptível que seja, tem seu impacto, mesmo que invisível até que seja tarde demais.

A narrativa brilhante de Atwood, para alguns, pode carecer que objetividade e clareza, mas acredito que este seja, na verdade, um dos grandes temas do livro, isto é, o quanto é difícil confiar na perspectiva de um narrador-personagem, na medida em que nossa memória frequentemente nos prega peças. Offred mais de uma vez começa a contar uma história e, depois, se corrige, para se corrigir mais uma vez em seguida e admitir que não sabe o que aconteceu; jogar com sua memória e sua imaginação parece ser uma das estratégias da personagem para manter-se sã e, portanto, não sabemos até que ponto seu relato é confiável.

Gostaria de acreditar que isso é uma história que estou contando. Preciso acreditar nisso. Tenho que acreditar nisso. Aqueles que conseguem acreditar que essas histórias são apenas histórias tem chances melhores.

Se for uma história que estou contando, então tenho controle sobre o final. Então haverá um final, para a história, e a vida real virá depois dele. Poderei recomeçar onde interrompi.

Em resumo, é um livro que já seria incrível enquanto distopia/ ficção científica, mas Atwood faz questão de adicionar uma série de outras camadas a ele, de modo que torna-se uma obra que pode ser analisada tanto por seu lado mais político, pois é impossível a ler sem temer o quão próximo podemos estar da realidade descrita nela, quanto por seu estilo e sua auto reflexão sobre o processo narrativo em si.

[RESENHA] O Sorriso da Hiena – Gustavo Ávila

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Em O Sorriso da Hiena, o autor brasileiro Gustavo Ávila nos brinda com uma mistura de romance policial e ensaio sobre o Bem e o Mal, protagonizada por três pólos: o detetive Artur, o psicólogo infantil William e o serial killer David. Estes três personagens serão responsáveis por conduzir a história, de modo que a ação de um interfere diretamente no outro e na série de acontecimentos que compõe esta história.

Isto acontece porque, ao mesmo tempo que Artur começa a se ver as voltas com uma série de assassinatos onde a única semelhança é o método e o fato do único sobrevivente ser sempre uma criança, órfã, William recebe uma proposta inusitada do assassino que mexerá com aquilo que acredita e colocará em cheque suas boas intenções.

É possível colaborar com o Mal e ainda fazer um Bem? Os fins podem justificar, radicalmente, os meios? Até onde fazer mal a alguns pode servir de justificativa para ajudar a muitos outros? Há limites para a pesquisa científica ou qualquer metodologia é justificável tendo em mente que o resultado pode ajudar a centenas, se não milhares, uma vez a pesquisa concluída?

Estas são algumas das questões com as quais William se virá obrigado a encarar e o modo como ele lida com elas também obrigará a nós, leitores, a pensar sobre elas com honestidade: será que faríamos diferente? Até que ponto boa intenções justificam compactuar com ações terríveis e, até mesmo, tomar parte direta nelas? E o mais interessante é que Ávila consegue fazer isso sem que a parte reflexiva soe forçada; há um perfeito equilíbrio entre ação, mistério e reflexão.

O único ponto que me incomodou um pouco no livro é o quanto ele gira em torno do gênero masculino: o detetive é um homem, o assassino é um homem, o psicólogo é um homem. A única personagem feminina com maior destaque é a detetive Bete, cujo papel na história poderia ter sido melhor aproveitado mas que tem um encaminhamento dentro da história bem complicado, na minha opinião. Mas, apesar deste problema, é um livro incrível e que é mais um exemplo que como é importante conhecer e valorizar nossa literatura nacional! Recomendo!

O mundo e as espécies que o habitam evoluem de acordo com o ambiente para se adaptar e garantir sua sobrevivência. Se pudesse, um recém-nascido com fome e sem alimento não hesitaria em matar outro recém-nascido que está com uma mamadeira, para poder tomar o seu alimento e saciar sua fome. O mal é um estado natural do ser humano, que nasce sem a noção de certo e errado, sem consciência moral, agindo para saciar suas necessidades, movido apenas por seus instintos selvagens. Em um mundo onde o mal nasce com a gente, todos fariam qualquer coisa, sem apego à moralidade, para não sucumbir.

[RESENHA] A volta ao mundo em 80 dias – Jules Verne

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Um clássico originalmente publicado em 1872, quando de fato seria um grande desafio alguém dar a volta ao mundo em 80 dias, Jules Verne nos presenteia com uma aventura fantástica. Hoje, talvez, tenhamos perdido esta noção, mas como fica bem claro na história contada por Verne, no século XIX isso seria bem difícil de se fazer. Bem difícil mesmo.

Desbravando lugares e culturas pouco exploradas na literatura europeia, embora ele permaneça a maior parte do tempo todo no hemisfério norte, o narrador nos conduz por uma narrativa que engaja o leitor ao mesmo tempo que desperta nossa curiosidade por tantas diferentes culturas, às quais somos apenas brevemente apresentados. É muito bonito como os nossos protagonistas encaram esta aventura e  a relação que eles estabelecem com o novo.

Acredito, no entanto, que o grande trunfo desta obra, que é considerada o “maior sucesso de livraria” de Verne, é o modo como o autor usa o humor a seu favor. Começando pelo fato de que é uma aposta de mesa de bar que leva o protagonista, Phileas Fogg, a encarar esta aventura, existe um certo humor do absurdo que perpassa todo o romance, fazendo com que dificilmente fiquemos entediados ou cansados.

No final, na verdade, o que eu queria mesmo era mais aventuras de Fogg e seu empregado, Jean Passepartout, mas toda aventura acaba e esta acabou de maneira incrível, mantendo-se sempre fiel ao seu humor do absurdo. Recomendo esta leitura especialmente para os fãs de aventura e aqueles que tem receio de ler clássicos por acharem que vai ser “chato”.

Não consegui, no entanto, desapegar deste livro tão facilmente assim, então resolvi transformá-lo no impulso que eu estava precisando para um projeto que ajudasse a diversificar mais as minhas leituras (e a de quem mais vier comigo). Assim nasce o projeto:

A VOLTA AOS LIVROS EM 80 MUNDOS

 

Eu ainda vou fazer um post oficial do projeto, que deve sair em Dezembro, pois  este é um projeto para 2018, mas o funcionamento dele vai ser bem simples: eu separei 80 dos quase 200 países que compõe nosso Planeta e vou ler pelo menos 1 livro de cada país. A ideia é que todo mundo que quiser participar escolha alguns países (ou todos eles!), leia também um livro de lá (e não precisa ser de jeito nenhum o que eu escolhi) e que possamos conversar sobre essa experiência, seja aqui no WordPress ou em qualquer rede social! Basta me marca e usar a hashtag #aVoltaAosLivrosEm80Mundos ! No fim do ano eu volto para contar para vocês mais detalhes sobre o projeto, a ordem (sorteada) dos países e tudo mais 🙂

 

[RESENHA] Capitães da Areia – Jorge Amado

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A leitura de Capitãesda Areia não é fácil. Protagonizada por um grupo de moradores de rua, em sua maioria crianças e adolescentes, esta é uma história dura, real e que consegue, mesmo oitenta anos após a sua primeira publicação, permanecer 100% atual. Mesmo sendo uma leitura difícil, Jorge Amado consegue, de alguma forma, torná-la bela e apaixonante.

Isso acontece porque ele não nos apresenta uma visão dualista da situação; os Capitães da Areia são complexos e constantemente se esquivam de classificações fáceis. É impossível determinar até que ponto eles são as vítimas ou os delinquentes, o mau ou o bem, os certos ou os errados dentro do contexto em que estão inseridos. E, honestamente, isso não importa. Amado constrói sua narrativa com tamanha empatia que somos envolvidos por completo pela história e esquecemos facilmente de julgar como fazemos com os Capitães da Areia da vida real.

Existem alguns pontos bem polêmicos no livro, inclusive um relato de estupro que, na minha opinião, soou um pouco desnecessário, mas acho que as suas qualidades são bem maiores que suas polêmicas.

Principalmente porque Jorge Amado consegue, de maneira muito simples e sutil, construir uma narrativa que defende com unhas e dentes a liberdade, fazendo-nos apaixonar por personagens que dificilmente recebem a mesma compaixão e amor que o autor demonstra na sua obra na vida real. Não é uma jornada fácil, mas é o tipo de livro que tem o poder de mudar vidas (e comportamentos).

A liberdade é como o sol. É o bem maior do mundo.

[RESENHA] O lado escuro da madrugada – Roberto Giacundino

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  • Este livro foi recebido pelo blog em parceria com a Agência Literária Oasys Cultural

Em seu livro de estreia, Roberto Giacundino constrói um inesperado romance policial envolvendo um assassinato de um famoso publicitário em pleno Teatro Municipal de São Paulo e uma repórter que logo larga suas obrigações com a emissora de televisão para lá e passa a se dedicar com afinco em descobrir quem é o responsável por este crime.

O problema central da investigação é: fica claro desde cedo que, como o crime foi cometido durante uma cerimônia de premiação, após a vítima ter recebido um prêmio por uma campanha publicitária contra a discriminação, que o assassino muito provavelmente é um dos convidados. Poderia ser a ex-namorada, enciumada depois de ser trocada por uma menina? Poderia ser um dos funcionários da emissora de TV que fora visto discutindo com a vítima alguns minutos antes de sua morte? Poderia ser algum membro de uma organização neonazista insatisfeito com a campanha contra a discriminação?

As possibilidades parecem ser infinitas. Mas só parecem infinitas, pois encontram neste livro um romance policial no estilo clássico, em que aos poucos vão surgindo pistas, algumas que destraem nossa heroína e outras que a deixam mais perto da verdade. O momento da revelação é bem construído, tanto por ser uma cena cheia de ação quanto por conseguir nos surpreender sem fazer com que nos sintamos enganados; a resposta estava ali, ao nosso alcance, o tempo todo.

No entanto, como seria natural, principalmente em um romance de estreia, existem dois pontos que poderiam ter sido melhores, na minha opinião. Primeiro, há muitos capítulos em que conhecemos o background da protagonista, a jornalista Sandra Garcia. Ela tem uma história muito interessante, em que muitos fatos do passado podem servir de base para compreendermos melhor suas ações do presente, mas senti certo exagero nesta “volta ao passado”.

Outro aspecto que poderia ter sido melhor trabalhado no livro é o quanto de informação o autor nos dá, isto é, o bom e velho “Show, don’t tell” (Mostre, não diga). Isto porque em mais de uma ocasião senti que o autor estava sendo repetitivo, me informando de coisas que já tinham ficado claras anteriormente.

Entretanto, mesmo com estes pequenos problemas, eu gostei bastante da leitura e recomendo para quem está atrás de um romance policial que mistura elementos tipicamente brasileiros com aqueles que fazem parte da tradição do gênero. Também é uma boa pedida para quem, como eu, costuma sentir falta de escritores homens capazes de escrever personagens femininas tão bons quanto os masculinos.