[RESENHA] Não, nada – Laura Tardin

Um protagonista com um toque de misantropo, que se sente melhor do que todos a sua volta e vai desafiar o leitor a acompanhá-lo em sua jornada.

Escrito em primeira pessoa e fazendo uso de um poderoso fluxo de consciência, a narrativa busca fazer com que sintamos empatia pelo protagonista masculino, que nunca chega a ganhar nome, mas ganha força nas formas com que suas ações e pensamentos questionáveis encontram eco naquilo que não admitimos, mas pensamos diariamente.

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[RESENHA] The Testaments – Margaret Atwood

Publicado 34 anos depois, é através dele que Atwood nos conduz de volta a Gilead, 15 anos depois dos eventos do Conto da Aia.

Dessa vez a narrativa tem três vozes simultâneas, em vez de apenas uma, o que enriquece bastante a experiência do leitor, que consegue ver os eventos se desdobrando por seis mãos. Essa escolha faz com que o nosso envolvimento na história, principalmente na segunda metade do livro, seja ainda maior do que quando temos acesso a apenas um personagem.

Além disso, uma dessas vozes é de uma personagem que conhecemos bem do livro anterior mas que aqui tem uma segunda chance de nos mostrar um novo lado seu. Essa personagem ganha, assim, camadas inesperadas e se torna parte essencial da revolução contra o governo machista e autoritário que comanda Gilead.

Atwood constrói um romance tão poderoso quanto o primeiro, onde a ação ganha mais destaque, mas a forte carga reflexiva e crítica do primeiro permanece.

É uma leitura forte, mas que não vai, de forma alguma, decepcionar os fãs receosos do primeiro livro.

[RESENHA] Copacabana Dreams – Natércia Pontes

Sabe aquele livro comprado por impulso que você nem lembrava mais que tinha?

Esse é Copacabana Dreams, um livro que comprei mais pela capa e por ser da CosacNaify do que qualquer coisa, afinal nunca tinha ouvido ninguém falando sobre ele e desconhecia a autora.

Acabou sendo, entretanto, um passeio delicioso pelo lado que sempre foi o meu favorito de Copacabana: a loucura.

Nos colocando no papel de observadores, Natércia Pontes nos conduz por uma vivência do bairro carioca que beira o realismo fantástico, mexendo com nosso percepção e nosso conceito de normalidade.

“As pessoas não se assustam. Continuam impassíveis pelas calçadas, atravessando sinais, andando de um lado para o outro, regando as samambaias na janela, existindo”.

Ela captura bem o espírito do bairro carioca, em contos e microcontos de leitura gostosa e divertida.

Não sei se ainda há exemplares disponíveis, mas recomendo demais!

Perfeito para aquele momento em que precisamos de uma leitura mais leve e, por que não, um pouco absurda.

[RESENHA] A Paciente Silenciosa – Alex Michaelides

Um casal de artistas que parece ter o mundo a seus pés. Pelo menos até que Alice, a esposa, atire no marido e não fale uma só palavra desde então.

Muitos anos se passam desde sua condenação e subsequente confinamento a uma clínica psiquiátrica, mas ela ainda se recusa a falar qualquer coisa, seja para se defender ou dar qualquer tipo de explicação.

Theo, um jovem terapeuta através do qual acompanhamos essa história, parece não aceitar o estado das coisas e está determinado a fazê-la falar.

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[RESENHA] As coisas que perdemos no fogo – Mariana Enriquez

Primeiro livro da escritora argentina a ser publicado no Brasil, em 2017, As coisas que perdemos no fogo está longe de ter as marcas negativas de uma autora estreante. Isto porque ela não o é. Este, na verdade, já é o seu quinto livro publicado, embora os outros nunca tenham recebido tradução brasileira.

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[RESENHA 2 em 1] A Guerra que Salvou a Minha Vida + A Guerra que me Ensinou a Viver – Kimberly Brubaker Bradley

Ao longo desta duologia, vamos acompanhar o desenrolar da vida dos jovens Ada e Jamie, que acabam sendo evacuados para o interior da Inglaterra no início da Segunda Guerra Mundial e, lá, acabam sendo postos sob os cuidados de Susan, uma mulher que passa por um momento difícil em sua vida mas acaba mostrando a eles todo uma nova forma de ver e vivenciar o significado da palavra família.

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[RESENHA] Circe – Madeline Miller

Livro enviado pelo Turista Literário no mês de março, Circe dá voz à bruxa que alguns de nós lembramos de uma breve passagem pela Odisseia de Homero, mas que muitos não conhecem, ou conhecem apenas o olhar de Odisseu sobre ela, mas não muito sobre sua origem ou sobre como chegou à ilha que passou a ser seu lar.

Madeline Miller desafia a expectativa de que estamos prestes a assistir a uma nova versão da mitologia grega, unindo a isso novos personagens, novas perspectivas sobre a história e cultura gregas, sem, no entanto, deixar de se manter fiel à sua inspiração. Temos, assim, um reconto potente, envolvente e rico, que nos leva além de nossos expectativas.

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[RESENHA] Os Sete Maridos de Evelyn Hugo – Taylor Jenkins Reid

Os Sete Maridos de Evelyn Hugo é tudo que não esperamos encontrar nele. Pois apesar do título dar aparente protagonismo aos homens que passaram pela vida da personagem, o que Reid vai nos mostrar é que em vez da história da sua relação com seus sete maridos, o que ela está interessada em contar é a versão dela, de Everlyn Hugo, de tudo que viveu e foi dito sobre ela ao longo de sua vida.

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[RESENHA] A Pequena Sereia & O Reino das Ilusões – Louise O’Neill

Pequena Sereia Feminista?

Esse é o desafio ao qual a autora irlandesa Louise O’Neill se propôs em sua releitura do clássico A Pequena Sereia.

Tomando por base o conto original, e passando BEM LONGE da versão Disney, o livro nos apresenta Gaia, uma sereia curiosa pelo mundo humano e que se sente prisioneira de um mundo que pede que ela seja apenas uma bela sereia, e nada mais.

Em sua primeira parte, o reconto segue exatamente o que esperamos, com um ingrediente a mais: Gaia busca a verdade sobre sua mãe, que também se encantou pelo mundo humano e acabou morta no dia em que a filha caçula completava um ano de idade.

O reconto tem uma estrutura que segue ponto por ponto o conto original, desviando dele em pequenos detalhes que parecem sem importância, mas que, ao final, tornam-se decisivos.

Embora eu ache que a autora poderia ter ido ainda mais longe, dando mais profundidade e destaque à transformação da personagem a partir das descobertas que ela faz, que acabam ficando muito para o final, eu gostei muito da perspectiva que O’Neill nos mostra.

Ela acerta demais nos pontos que levanta, tanto em relação ao mundo patriarcal que coloca as mulheres umas contra às outras quanto em relação à objetificação da mulher.

Assim como nós imaginamos mundos melhores, Gaia imagina que encontrará no nosso mundo humano algo melhor, mas descobre o que já sabemos: o machismo está em todo lugar e é na nossa luta, juntas, que está a esperança de uma vida melhor.