[RESENHA] Kindred, Laços de Sangue – Octavia E. Butler

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Estamos acostumados a tratar do tema da Viagem no Tempo sempre de forma muito positiva. Ou nós somos Doctor Who, o salvador do Planeta, consertando problemas no futuro e no passado, ou nós somos uma pessoa comum tentando consertar algum grande erro do passado.

Kindred, no entanto, lança uma possibilidade bem mais grave e complexa: e se você fosse levada ao passado para salvar a vida de seu antepassado sempre que ele estivesse em risco? E se ele fosse branco? E se você fosse uma jovem mulher negra? E se o passado para onde você é levada fosse um Sul dos Estados Unidos pré- Guerra Civil?

Parece que viajar no tempo já não é tão divertido assim. Principalmente quando você não tem opção entre ir para lá ou voltar para casa, nos anos 1970.

“Não entendo como pode estar acontecendo, mas é real. É doloroso demais para não ser. E… e meus ancestrais, pelo amor de Deus!”

Assim, Dana, nossa protagonista, se divide em dois papéis: em primeiro lugar, ela é uma observadora, vivendo uma época que só conhece dos livros de história e, nesse sentido, qualquer leitor se relaciona fortemente com ela. Conhecemos o período é nosso primeiro reflexo também é o dela: o de se sentir mais ligado ao nosso presente e ver aqueles momentos de viagem do tempo como temporários e como uma oportunidade de ver diante de seus olhos a História se desenrolar.

No entanto, essas visitas começam a ficar mais longas e, com isso, Dana começa a ser tratada e a viver a vida de uma mulher negra naquele contexto histórico. Algo que nós podemos apenas imaginar como é, mas que Butler nos dá a chance de experimentar através da nossa empatia não só por Dana, mas pelo modo próximo através do qual ela nos apresenta cada um dos seus personagens secundários.

“Não era um monstro, de forma alguma. Só um homem comum que às vezes fazia coisas monstruosas que sua sociedade dizia serem legais e adequadas”.

Além da questão racial, Butler também faz questão de chamar atenção para o quão distinto era o tratamento que as mulheres recebiam, assim como a forma extremamente preconceituosa que deficientes físicos e mentais eram tratados. E ela faz isso muito forte e sutilmente, de modo que cada tema tratado soa natural, e não forçado ou didático.

No meio de tudo isso, acabamos bastante surpreendidos, não só pelas descrições fortes e angustiantes de todo tipo de horror pelo qual Dana é demais personagens passam, mas também pelo modo como cada ação de cada personagem frequentemente tem consequências inicialmente imprevisíveis.

Em uma narrativa de qualidade impressionante, e que acaba acompanhando toda a vida de diversos personagens, em seus momentos mais marcantes e definidores, somos sugados e levados a uma experiência muito intensa. Não é das leituras mais fáceis, mas o que ela tem de angustiante tem também de educadora e reflexiva.

“Mas como eu venho para casa? O poder é meu ou tiro certo poder dele? Afinal, tudo isso começou com ele. Não sei se preciso dele ou não. É só vou saber quando ele não estiver por perto”.

Recomendo especialmente a edição em capa dura da Editora Morro Branco, pois ela contém uma série de materiais extras, inclusive uma série que questões a seres pensadas a partir da leitura. Esses material torna a experiência de leitura dessa obra ainda mais rica.

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[RESENHA] Pequenos Incêndios Por Toda Parte – Celeste Ng

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Enviado pelo Turista Literário no mês de Maio de 2018, Pequenos Incêndios Por Toda Parte é um drama familiar que acompanha os eventos que terminarão na casa da família Richardson sendo incendiada. A narrativa começa nos relatando o incêndio e, a partir desse momento, tudo é contado em flashback, fazendo o leitor observar a sequência de fatores que levaram àquele momento.

Embora tenha uma premissa muito instigante e promissora, tanto que este foi um livro que, se não tivesse sido enviado pelo Turista, com certeza teria entrado na minha Wishlist, minha experiência com ele foi bem decepcionante. Pois, apesar de não ser de forma alguma um livro ruim, ele está bem aquém do que seria esperado por conta de uma série de equívocos.

O primeiro deles é o foco e estilo narrativo. A narrativa em terceira pessoa não parece nascer de uma escolha consciente, mas sim a partir do que é mais conveniente no momento. Às vezes temos acesso a pensamentos e a perspectiva exclusiva de uma personagem específica, enquanto outras a narração nos conta (SHOW, DON’T TELL!) tudo que precisamos saber sobre o passado de uma determinada personagem. O foco narrativo se perde e é difícil entender em qual história deveríamos nos concentrar, pois a cada capítulo o foco parece ser um, sem que tudo faça sentido, enquanto conjunto, no final.

Além disso, me incomodou profundamente o quão rasos e clichês os personagens são. De um lado temos os Richardson, a família tradicional americana: o casal de comercial de margarina e seus quatro filhos, cada um incorporando um clichê de filme adolescente. Do outro, temos a artística e misteriosa Mia e sua filha Pearl, que, apesar de amar profundamente a mãe, está cansada de seu estilo de vida nômade e secretamente sonha em fazer parte do clã Richardson. Em quantos mil outros livros, filmes e séries já não vimos essa história?

As relações das duas famílias são construídas de uma maneira tão clichê é previsível que rapidamente nos desinteressamos por seus dramas pessoais e ficamos bem mais interessados na trama paralela da disputa judicial pela guarda de uma criança sino-americana. Como leitora acredito, inclusive, que se o foco narrativo caísse exclusivamente nessa trama, o livro teria sido bem mais complexo e interessante.

No entanto, como disse no início, o livro não é ruim. O mistério por trás da vida nômade de Mia, aliado à sua interessante forma de trabalhar com a arte da fotografia, faz dessa uma leitura agradável e que prende o leitor o suficiente para querermos saber como termina. Porém, é daquele tipo de leitura que, ao final, não nos convence.

É perfeitamente possível que os fãs da obra tenham visto nela um retrato realista de como certos subúrbios americanos funcionam e tenham até se identificado com um dos personagens. Afinal, o clichê é clichê porque ele representa algo real. Porém, isso não é suficiente. Na literatura temos a chance de fazermos algo mais interessante que a realidade, e esta oportunidade foi claramente desperdiçada em Pequenos Incêndios Por Toda Parte.

[VOLTA AOS LIVROS EM 80 MUNDOS #21: FRANÇA] Madame Bovary – Gustave Flaubert

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Um dos principais clássicos da literatura francesa, Madame Bovary é um daqueles livros que ouvimos tanto falar que até parece que já lemos. Mesmo assim, quando pega o livro efetivamente para ler, percebe que cada experiência é única e a sua relação com o livro pode ser bem diferente de tudo que você já ouviu sobre.

No meu caso, por exemplo, a leitura de Madame Bovary não foi tudo isso que eu esperava. A leitura em si me cansou um pouco, pois não é muito fluida (o que pode ser um problema de tradução, claro, e não do original) e tem muitos trechos que não contribuem necessariamente para o cerne da história.

É claro que eu também tinha expectativas muito grandes, depois de tudo que já li e ouvi sobre a obra e sua importância, a qual, curtindo ou não a experiência da leitura em si, é inegável. Flaubert de fato trata a personagem principal, Emma Bovary, de forma bem diferente do que estamos acostumados a ver em autores do século XIX, principalmente se considerarmos o tema principal da obra, que é o adultério.

Emma é uma personagem que, inicialmente, é apresentada de forma bastante tradicional, parecendo ser uma personagem maleável e exatamente o que se espera. Aos poucos, no entanto, diante da infelicidade que o casamento lhe apresenta, ela vai se transformando em uma personagem bem mais egoísta, com ações bastante escandalosas para a época, ainda que talvez não cheguem a chocar um leitor atual.

“O que a exasperava era que Charles não parecia dar-se conta de seu sacrifício. A convicção que ele tinha de que a fazia feliz parecia a Emma um insulto imbecil, e sua tranquilidade algo pior que a ingratidão.”

Em termos do nosso projeto, acho que é um livro que funciona bem para conhecer melhor a sociedade francesa da época e entender que tipo de transformação um livro como esse causou na mesma. Recomendo, desse modo, para quem tem interesse pelo tema e, principalmente, pelo período histórico, mas não acho que seja o tipo de clássico que se sustenta em si, atemporalmente, sem levarmos em consideração todo o contexto ao qual pertence.

[RESENHA] The Kiss of Deception -Mary E. Pearson

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“Há apenas uma história verdadeira

E um futuro verdadeiro.

Escutem bem, pois a criança nascida da miséria

Será aquela que trará a esperança.

Do mais fraco virá a força.

Dos perseguidos, a liberdade.”

Kiss of deception é o primeiro volume das Crônicas de Amor e Ódio, uma trilogia de fantasia jovem adulto que começou a ser publicada no Brasil há cerca de dois anos e cujo sucesso contribuiu bastante para o fortalecimento do gênero. Recheado de romance, política e conduzido por uma personagem feminina forte, é um prato cheio para os fãs da fantasia jovem adulto.

Lia, aos 17 anos, é a Primeira Filha da Casa Real, recentemente prometida a um casamento arranjado que poderia trazer união entre dois reinos. No entanto, Lia não é o tipo de pessoa que aceita facilmente ser usada como mero peão político e prefere fugir a pagar para ver o que a aguardaria nesse casamento. Mas esse é apenas o início da sua história.

“Mas eu não tenho o dom da Primeira Filha. Não sou uma Siarrah. Dalbreck logo vai descobrir que não sou a posse de valor que acreditam que eu seja. Esse casamento é uma farsa.”

Em meio a um triângulo amoroso, rapidamente descobrimos que nenhum dos dois interesses amorosos que surgem no caminho de Lia estão ali por acaso. Um é o príncipe de quem ela fugiu inicialmente, sem nunca tê-lo visto pessoalmente. O outro foi enviado até ela com o objetivo de matá-la. Embora não seja difícil acertar quem é quem, a autora mantém bem o suspense, deixando o leitor preso até o final.

Além disso, há muitas revelações inesperadas sobre a origem de Lia, assim como muitas perguntas sobre o Reino de Morrighan que ainda permanecem no ar. É claro que, por se tratar de uma trilogia, essas perguntas só fazem o leitor querer mais ainda ler os outros dois volumes, e eu na verdade gostei bastante do jeito que o livro terminou. Estou desesperada para continuar? Estou. Mas de um jeito bom.

“Há dezessete anos, segurei uma garotinha que gritava em minhas mãos. Ergui-a aos deuses, rezando pela proteção dela e prometendo-lhe a minha. Não sou um tolo. Faço promessas aos deuses, não aos homens”.

Outra coisa que me deixava com bastante receio nesse livro é o triângulo amoroso. Pessoalmente, eu raramente acho esse um recurso interessante. Porém, em Kiss of Deception, há muito mais envolvido do que apenas uma mocinha indecisa entre dois pretendentes e, por conta disso, é uma trama que vai agradar tanto os fãs de fantasia quanto os fãs de romance, na minha opinião.

“O vento, o tempo, ele circula, repete, ensina, revela, alguns golpes de ceifeira cortando mais a fundo do que outros. O universo sabe. O universo tem uma longa memória”.

Não leu ainda? Dê uma chance! Já leu? Me conta se gostou ou não!

[Volta aos livros em 80 mundos #20: Moldávia] The Good Life Elsewhere – Vladimir Lorchenkov

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The Good Life Elsewhere tem como ponto de partida as desventuras trágico-cômicas de um grupo de moradores de uma pequena vila moldoviana que buscam sair dali e vêem na Itália uma esperança de um emprego e de uma vida melhor.

A relação entre esses dois países é apresenta a nós de forma muito semelhante com a relação que nós mesmos pudemos observar, nas últimas décadas, entre a América Latina e os Estados Unidos da América. Por puro desespero, os moradores da Moldávia tiram o dinheiro que eles não tem, pois vivem em um situação de pobreza extrema, e dão a atravessadores que prometem conseguir passagem segura para a Itália, um lugar onde a expectativa é que emprego e dinheiro não faltará. No entanto, os poucos que chegam lá, apenas tem a oportunidade nos subempregos, fazendo aquilo que nenhum italiano quer fazer.

Em meio dessa situação bastante realista, Lorchenkov constrói um relato que está mais próximo do terreno do absurdo e até mesmo do puro surrealismo que de qualquer leitura realista. O tom do autor, carregado de humor negro, pode não ser para qualquer gosto, mas, na minha opinião, foi essencial para dar esse tom surreal e, de certa forma, suavizar e dar uns tapas na cara do leitor ao mesmo tempo.

Para quem tem um bom inglês, é uma leitura que recomendo bastante e, se for possível, recomendo mais ainda o audiobook disponível no Audible, pois a narração é muito bem realizada e tem uma interpretação que fará você rir alto, em público, de situações extremamente trágicas.

No fim, além de acertar no tom, o autor constrói muito bem um panorama completo de pobreza, perda de esperança e desespero total não só de um personagem, como fizeram outros antes dele, mas de toda uma nação. Assim, é de fato possível conhecer um pedacinho do que é feita a Moldávia contemporânea, além de termos em mãos uma excelente obra de ficção para nos inspirar.

[RESENHA] A cabeça do santo – Socorro Acioli

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A cabeça do santo, primeiro romance adulto da escritora brasileira Socorro Acioli, é uma narrativa extremamente original e surpreendente. Acioli toma um elemento que parece absurdo, mas é real, isto é, a existência de uma cabeça gigante de uma estátua de santo Antônio inacabada, e cria em cima disso uma história tão incrível quanto a realidade.

Samuel, em uma busca que parece perdida pelo pai que o abandonou, vai parar na cidade igualmente abandonada de Candeia, onde o interior da cabeça de santo Antônio é o único “teto” disponível para abriga-lo da chuva. No entanto, ao passar a dormir dentro da cabeça, Samuel, e somente ele, começa a ouvir as preces para o santo.

“Queriam casar. Quase todas guardavam no peito um amor escondido, secreto, por vezes até proibido, mas sempre amor. Outras, nem isso. Nem sequer tinham um destinatário para as orações, uma dica para a ação do santo, mas queriam casar porque, no sertão, mulher que não casa é mandacaru sem flor”.

A partir daí, se desvela diante de nossos olhos uma narrativa tão instigante que esse se torna um daqueles livros que não queremos parar de ler até o final, com direitos a mistérios e reviravoltas inesperados. A história da construção do santo Antônio e da cidade se Candeia começa a se confundir com a história do próprio Samuel e seu fiel escudeiro Francisco, de modo que apenas no final todos os pontos se ligarão e teremos acesso ao quadro completo.

Além de ser, como história, bastante poderosa, foi uma experiência muito interessante ler um livro passado no sertão cearense contemporâneo, por uma voz que sabe do que está falando, tanto que nos transporta para aquele lugar e cultura com perfeição. Mesmo para aqueles que, como eu, nunca estiveram na região, é possível sentir cada cheiro, cada cor, cada ambiente.

“Nem o ar tinha esperança de ser vento. Era custoso acreditar que morasse alguém naquele cemitério de gigantes”.

A cabeça de santo é, desse modo, um livro que chega para mostrar o quão rica, poderosa e inovadora pode ser a prosa nacional e como não precisamos permanecer reféns dos mesmos personagens e dos mesmos ambientes. Somos um país riquíssimo e retratar isso em nossa literatura, com a propriedade e o respeito devido, somente faz nosso mercado nacional crescer e se multiplicar.

[Volta aos livros em 80 mundos #19: Rússia] OS IRMÃOS KARAMAZOV – DOSTOIÉVSKI

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Os Irmãos Karamazov é a última obra de Dostoiévski e, segundo muitos intérpretes, a sua grande obra prima. Não sei se concordo com essa leitura, pois há outras obras do autor que eu gostei mais quando li, mas é de fato uma obra grandiosa. Não só pelas suas 999 páginas, que eu li bem mais rápido do que esperava até, mas por sua densidade e especialmente porque é um livro com diversos focos narrativos, diversas coisas em jogo ao mesmo tempo, e que, portanto, requer certa atenção.

Embora eu tenha achado que o ritmo da narrativa deixa a desejar em alguns momentos, sem que isso contribua necessariamente para uma maior reflexão e densidade do texto, quando as coisas acontecem elas REALMENTE acontecem! As surpresas e viradas durante a leitura não são poucas, de modo que o livro tem um saldo bastante positivo em termos de engajamento.

“Os Karamázov não são canalhas, mas filósofos, porque todos os russos de verdade são filósofos”.

É um livro que apresenta um lado bem interessante da Rússia, um lado cheio de bêbados, relações familiares para lá de conturbadas, mal-entendidos e pessoas que tentam disfarçar, mas, no fundo, só agem em interesse próprio. Cada um dos irmãos tem uma personalidade própria é uma relação bem particular com o pai e com os outros membros da família e é interessante observar, pelas suas ações mais do que pelas suas palavras, o que escondem as aparências no caso de cada um dos Karamazóv.

É uma leitura perfeita para o projeto e que valeu muito a pena sim, mas é daquelas leituras nas quais o leitor precisa estar realmente investido, pois em alguns momentos a narrativa pode se tornar cansativa, especialmente se você ainda não está acostumado com o estilo do autor. Não recomendo como primeira experiência com Dostoiévski, por exemplo. Nesses casos acho que O JOGADOR ou mesmo CRIME E CASTIGO são melhores introduções.

“Na maioria dos casos, as pessoas, inclusive os fascínoras, são muito mais ingênuas e simples que costumamos achar”.

Porém, para quem quer ser surpreendido, ter suas certezas questionadas e observar uma grande obra russa, extremamente filosófica e preocupada com a natureza humana, Os Irmãos Karamazov é uma excelente pedida.